*Autora da Pesquisa: Maria Cecília Araújo de Noronha - Mestra em Educação pela Universidade Federal do Paraná ( UFPR) e pós-graduada em Museologia.
A Igreja de Nossa Senhora Imaculada Conceição - Catedral de Jacarezinho - foi entregue à comunidade em 8 de outubro de 1949 pelo então Bispo Diocesano Dom Geraldo de Proença Sigaud.
Em 1954, atendendo ao convite de Dom Geraldo, chega a Jacarezinho o seu irmão, Eugênio de Proença Sigaud, para decorar a nova Catedral. De 54 a 57 foram realizados 600 m2 de murais que enriqueceram sobremaneira a arte brasileira. A frente desse trabalho Eugênio Sigaud, um dos mais importantes artistas do modernismo brasileiro.
Em Jacarezinho Sigaud promoveu modificações na arquitetura da Catedral, cujo projeto é do arquiteto Benedito Calixto Neto, e a decoração do mural onde se destacam: na Capela São Sebastião, 4 grandes murais - O Martírio de São Sebastião - 2,50 x 4 m; A Justiça - 2,50 x 1,30 m; A Providência - 2,50 x 1,30 m; e O Tributo do Povo do Paraná a São Sebastião - na cúpula.
Na Capela do Santíssimo Sacramento - O Sermão da Montanha - 2,50 x 4,00 m; A Fortaleza - 2,50 x 1,30 m; A Temperança - 2,50 x 1,30 m. Na Nave Principal - 12 profecias da vinda do Messias e na Cúpula do altar-mor - O Povo de Jacarezinho e o seu clero na Promulgação do Último Dogma de Pio XII - 11,00 x 3,00 m, com cerca de 100 figuras visíveis.
Nas suas pinturas Sigaud apresenta figuras do Velho Testamento e representa o povo da cidade, comerciantes, fazendeiros, filhas de Maria, congregados marianos, coroinhas, o motorista do bispo, o prefeito, o sacristão, pessoas humildes, tipos bizarros da cidade etc., além disto, as tradicionais oliveiras foram substituídas por pinheiros, cafeeiros e cana-de-açúcar. O nacionalismo e o expressionismo que as caracterizam aproximam-no dos muralistas mexicanos Orosco e Siqueiros. Quanto a uma possível fase religiosa, o período dos murais da Catedral, Sigaud disse: "Não, uma encomenda religiosa, apenas". Ateu convicto, declarou ao Jornal do Brasil, em 1978: "Sou ateu, sempre fui hostil à Igreja, não só a Igreja Católica como a qualquer tipo de religião. Quanto às questões teocráticas, sou contra, crítica e filosoficamente".
Sobre o Artista Nascido em Santo Antônio do Carangola, Estado do Rio de Janeiro, a 2 de julho de 1899, passou sua juventude em Belo Horizonte, diplomando-se como engenheiro-agrimensor. Em 1921, retornou ao Rio de Janeiro, matriculando-se na Escola de Belas Artes, sendo discípulo, no Curso de Desenho, de Modesto Brocos e em 1932 diplomou-se em Arquitetura na mesma escola.
Como engenheiro-arquiteto, desenvolveu intensa atividade no Rio de Janeiro, onde manteve uma firma de construção civil. Sigaud foi um dos fundadores do Núcleo Bernardelli, em 1931, que representou importante frente de renovação na arte carioca, que na época estava bastante indiferente ao movimento modernista. Com o objetivo de democratizar e renovar o ensino de arte, o Núcleo Bernardelli - que surgiu de um grupo de alunos da ENBA - caracterizou-se por uma postura ética e politicamente moderada, no que Sigaud foi uma exceção. Antes mesmo de 1935, o pintor participava das campanhas pró Partido Comunista, expondo inclusive numa grande mostra realizada na Casa do Estudante do Brasil, encabeçada por Portinari. Trinta anos depois Sigaud recordaria: "Militei até mesmo depois de 1945, contudo aquela exposição do Partido foi o maior evento, sem dúvida, e que representou a força social da arte que vinha sendo executada por mim: eu retrato até hoje a miséria de nossa classe inferior, minha pintura é da tinta socialista, como pode ser observado, não mudei de lá para cá".
Segundo Fernando Andrade, Sigaud foi injustiçado por muito tempo porque nunca escondeu suas convicções políticas, mas na sua última exposição, em 1976, na inauguração da Galeria B-75, as suas 32 obras expostas foram vendidas por altos preços.
Em depoimento dado a Frederico Morais afirmou: "Sou comunista. Engenheiro, sempre lidei com operários, o que explica a escolha dos meus temas. Sempre tive consciência do papel social da arte. Sempre fiz política. A meu ver, toda arte serve aos interesses políticos. A liberdade de criação, porém, é fundamental".
A carreira artística de Sigaud começou em 1923 com sua participação no Salão da Primavera na Guanabara. No ano seguinte, passava a figurar no Salão Nacional de Belas Artes, obtendo, em 1936 Medalha de Bronze e em 1942 Medalha de Prata (Divisão Moderna). Em mostra realizada em 1939, no Riverside Museum de Nova Iorque, recebeu Menção Honrosa com a obra Êxodo de Escravos e desde então participou das exposições nacionais organizadas pelo Museu Nacional de Belas Artes, da 1.ª Bienal de São Paulo e de numerosos Salões de Arte Moderna, de 1952 a 1966.
Realizou ao longo de sua vida artística cerca de 4 mil trabalhos em ilustrações, pinturas (em diversas técnicas), estudos para vitrais e murais, projetos de arquitetura e decoração, serigrafias, litografias etc.
Sobre a sua técnica, em entrevista dada a O Globo em 27/8/72, o artista declarou: "Em geral nossos pintores têm uma preguiça mental (especialmente os de minha geração de 1921) e pouco mais praticam além da pintura a óleo. Não só pelo estudo, como pela luta antiarte acadêmica, senti que existia muita beleza em outros materiais. Foi assim que, além do óleo, aquarela, têmperas (de ovo, leite ou caseina), pintei afresco e, especialmente, a encáustica praticada pelos egípcios, que era executada sobre linho, afim de cobrir o rosto da múmia. Aplico também todos os novos processos modernos, como o duco, e as novas tintas plásticas".
O seu estilo foi definido por Frederico Morais como "viril, algo rude e tosco na energia dos volumes, na ousadia das cores, dos vermelhos metálicos, que queimam como fogo dos alto-fornos e dos maçaricos, na largueza de um desenho trepidante e nervoso, na opção pelos primeiros planos que dinamizam e dramatizam a composição".
Embora suas obras tenham temática variada, paisagens, retratos, temas religiosos, figurações simbólicas, foram os temas sociais, repletos de emoção e de grandeza excepcional, que marcaram a produção do artista.
Sobre a sua arte Sigaud afirmou: "Nunca foi minha pintura um ato gratuito, nem mesmo minha arquitetura, porque isto seria antes de tudo uma covardia.
É, antes de tudo, uma atitude consciente e firme, uma finalidade com objetivos artísticos, políticos e sociais. Celebro com elas, às vezes e especialmente, a magnitude e a grandeza do trabalho humilde do operário, este trabalhador anônimo em todos os setores da grandeza da Pátria".
Entre os acervos que possuem as obras do artista destacam-se: o Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro; o Museu de Moçambique, em Maputo; a Universidade Obrera do México, além de numerosos colecionadores particulares no Brasil e no exterior.
Em 1950, executa o projeto arquitetônico e a decoração do edifício-sede do Sindicato dos Despachantes aduaneiros do Rio e no salão de honra, pinta 2 grandes painéis com alegorias ao trabalho operário nos portos.
Na pintura e decoração de murais, executou o projeto de restauração, a decoração arquitetônica e os vitrais do paravento da Igreja São Jorge, no Rio de Janeiro.
Por ocasião da morte de Sigaud, verificada em 07/08/1979, o crítico de arte Aurélio Benitez disse que "o Paraná passou a ser o único estado fora do Rio a possuir um painel desse artista pintado numa igreja. Trata-se do enorme mural realizado na Catedral da cidade de Jacarezinho, entre os anos de 54 a 57. Esta obra reveste-se de uma importância toda especial nas artes plásticas do Brasil. Pelo seguinte: Eugênio de Proença Sigaud é considerado um dos mais representativos pintores modernos de nosso país no campo das artes plásticas, no estilo figurativo, estando ao lado de Di Cavalcanti, Emeric Marcier, Portinari e Guignard. Como todos estes pintores, Sigaud não se deixou embalar pela onda abstracionista que assolou todo o mundo nas últimas décadas. Ficou fiel ao seu estilo, que se caracterizava em apresentar o ser humano enfrentando as vicissitudes da vida".
Sempre disposto à pilhéria, conta Luís Felipe Gonçalves, no seu livro "Sigaud, O Pintor dos Operários", que durante os trabalhos na Catedral, um padre cheio de espanto inquiriu o artista sobre as figuras de meninas desenhadas de costas para o altar, ao que ele respondeu "não se preocupe, seu padre, assim que eu terminar elas viram de frente para o Santíssimo".
A este grande artista e à sua obra, rendemos as nossas homenagens.
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